Publicidade

Querido bebê da pandemia


19/ago/2020 | Anielle Casagrande |

Querido bebê. Não bastasse o apelido de “bebê do carnaval”, que me deixa indignada porque foi muito planejado e eu odeio carnaval, risos, você também vai ser para sempre um bebê da pandemia. Quando for adulto ainda vai ter gente que vai ver a data do seu nascimento, final de 2020, e lembrar de como foi o decorrer deste ano tão bizarro. E apesar de todas as histórias, você nunca vai saber na prática como foi, porque estava flutuando confortavelmente em líquido amniótico, alheio e protegido de tudo isso enquanto a gente montava o ninho como forma de não enlouquecer.

Quando eu engravidei na metade de fevereiro o coronavírus já estava deixando sua avó quase louca bem longe, lá na Alemanha. Chegou num ponto que ela só falava disso e eu pensava que ela estava surtando à toa. Cheguei a tirar sarro e dizer que era mais fácil alguém ser atropelado por um tubarão de bicicleta que pegar coronavírus, veja só! Menos de um mês depois, seria declarada a pandemia. Mesmo assim viajamos para o Ceará a trabalho: acontece que viajamos bem cedinho bem no dia em que depois foi feita essa declaração mundial e na época realmente não parecia ser tudo isso. 

Voltando do Ceará foi bastante assustador. Curitiba estava muito diferente. Moramos no centro e ficávamos ouvindo um helicóptero berrando “volte para casa, volte para casa” dia todo e dias depois começaram as muitas ambulâncias a passar. Nós estávamos viajando quando as coisas mudaram por aqui, então foi um choque e num primeiro momento não tínhamos entendido a gravidade da situação: nos primeiros dois dias fomos ao mercadinho aqui na esquina, para depois a obstetra nos mostrar como estávamos totalmente sem noção. E na época eu ainda nem sabia que teria uma gravidez de risco, o que mudou na primeira semana de abril. Fato é que desde março só saímos de casa para te ver na telinha da obstetra e mais nada.

E cada saída foi bizarra. Primeiro, que eu gostava de ficar pensando que roupa usar para mostrar a barriga, afinal era só uma vez por mês que eu colocava alguma roupa diferente e saía na rua. Também passamos maus bocados em pronto socorros de dois hospitais diferentes. Em um, me mandaram colocar a calcinha no chão sobre os sapatos porque não tinham como desinfetar o banheiro e consultório entre um paciente e outro. Você pense no medo de pegar nos trincos, portas, catracas, tocar na mesa etc, depois de me tocar da impossibilidade de desinfetar tudo a cada paciente. No outro hospital, que fomos três malditas vezes, a médica nos examinava enquanto comentava com a colega sobre a situação do covidário (depois descobrimos que é o setor do hospital onde ficam os doentes com covid).

Quando saíamos de carro para ver você na telinha, eu ficava olhando as vitrines. Nenhuma vitrine com itens de bebê escapava do meu olhar. Pode ser até uma simples farmácia: eu ficava olhando atentamente as fraldas, sabonetes, chupetas… quando eu poderia pôr as mãos nisso? E o nariz? E você tem noção a estranheza que foi para nós montar um enxoval online? Por exemplo: queríamos um carrinho que fosse pequeno e leve, afinal viramos uma família viajante. Pesquisamos muito até achar um carrinho de 3,8kg e 70cm, aparentemente um dos mais leves do mundo. Compramos, mas ficamos pensando será que perto dos outros ele é tão mais leve e menor assim mesmo, para valer toda essa grana? 20 cm faz tanta diferença? Ficou só na imaginação a imagem dos carrinhos lado a lado para compararmos o abre-e-fecha, o tamanho, o peso, as dicas do vendedor etc.

Mesma coisa as roupas e produtos de banho que compramos todos online sem poder tocar ou cheirar. Claro que ficar em casa durante uma pandemia é um baita privilégio*, especialmente sendo gestante de alto risco; mas isso não muda o fato que está tudo muito esquisito sim, pra nós também. Imaginar o cheiro dos sabonetes apenas lendo resenhas online. Comprar roupinhas pra depois perceber que ao vivo são gigantes e têm costuras que coçam por dentro. Faz parte, mas é bem diferente do que eu imaginava anos atrás, quando pensava em engravidar e ia na C&A olhar e tocar nas roupas felpudas com orelhas de coelho. 

*Desde início abril foi garantido por lei o direito ao afastamento do trabalho presencial a TODAS as gestantes brasileiras, de risco ou não, mas sabe como são as coisas no Brasil. Muita gente nem água tem em casa, ou formas de ficar isolado em casa por muito tempo, e muitos nem casa tem. Não muda o fato que tive uma gravidez muito diferente do que eu esperava e que o texto é sobre minha experiência individual.

Mesmo assim, conseguimos dar um jeitinho todas as vezes, por mais confuso que tenha sido em alguns momentos, já que não entendemos NADA de bebês e não tínhamos um vendedor para dar dicas e mostrar as coisas, e montamos um ninho com todo carinho para nós três. Compramos tudo muito cedo justamente para ter tempo de trocar ou devolver o que não desse certo, o que precisamos fazer apenas três vezes, ainda bem. E deu tudo certo. Agora só falta você smile


Publicidade
^